A ARTE DOS ENGANOS
A chicane política
O povo está distraído com o
futebol. Os responsáveis do país já fazem as malas e estão ansiosos para irem
assistir aos jogos da selecção. O Presidente da Assembleia da República,
segunda figura do Estado, foi o primeiro a seguir para os EUA para assistir ao
primeiro jogo. Só não foi esclarecido se o deputado a meio-tempo usou a
deslocação no meio-tempo de deputado ou no meio-tempo de advogado de negócios…
O certo é que todos vão; o Zé pagode, paga…
Desta feita, para não acontecer o
mesmo que aos três secretários de estado, que foram exonerados por irem a
França, em 2016, a convite da GALP, a Federação Portuguesa de Futebol, entidade
com estatuto de utilidade pública e que recebe subsídios do Estado, para
contornar o limite do recebimento de ofertas superiores a 150,00€ que está
vedado aos deputados, enviou convites personalizados e não transmissíveis aos
líderes dos partidos e aos líderes parlamentares. Aguiar Branco, segundo o
Jornal de Negócios, de 16 de Junho, concluiu num despacho, que os convites “têm
natureza institucional” e dado terem sido dirigidos “aos órgãos de direcção dos
partidos e respectivos grupos parlamentares, e não a deputados individualmente
considerados, não dependem de autorização parlamentar nem são abrangidos pelas
regras aplicáveis às ofertas recebidas no exercício do mandato”. Como se
observa, há sempre alçapão à medida para ilibar aqueles que elegemos, não
havendo contemplações para com os pobres, onde cada vez mais lhes fecham as
portas e janelas para poderem aceder ao apoio público para viverem com alguma
dignidade…, mas queiram ou não, os ditos cujos senhores são deputados eleitos,
donde recebem o seu salário, quer estejam a meio tempo ou em regime de
exclusividade, pelo que isto parece compaginar-se, eventualmente, em recebimento
indevido. Mas quem sou eu, pobre escriba, para contrariar o douto entendimento
do notabilíssimo Advogado, Aguiar Branco…
O certo é que todos, em tempo de
Santos Populares, dançaram quando tiveram conhecimento do convite da FPF. Segundo
a notícia veiculada pelo Observador, “PSD, Chega e Iniciativa Liberal
manifestaram intenção de aceitar o convite da FPF”. Por sua vez, o “Partido
Socialista indicou que está a avaliar o enquadramento da iniciativa”. Já o PAN
optou por recusar. O PCP não comentou. O Bloco de Esquerda afirmou não ter
recebido qualquer convite.
Só que, topada a patranha, as
redes sociais enxamearam-se com críticas aos digníssimos deputados por
abandonarem o seu trabalho para irem à bola à custa de uma entidade que recebe
dinheiros públicos, e vai daí surgiram de repente umas dificuldades de agenda
para dizerem não – quando, eventualmente, alguns já tinham as malas feitas. Carneiro
e Ventura alegaram as dificuldades de agenda. Só não há qualquer notícia sobre a
posição do líder da bancada do PSD, já que o líder do partido, esse, na
qualidade de primeiro-ministro, já anunciou a sua ida para assistir a um jogo…
Ai, futebol, futebol, que és o ópio do povo e o palanque dos especialistas na
arte dos enganos…
Assim andamos! Primeiro futebol,
depois futebol, a seguir futebol e lá está a geringonça da direita (AD, Chega,
IL) em dança afinada para destroçar os trabalhadores, com o código laboral; e
os pobres a serem “condenados” a trabalhos forçados, com a PSU. O povo, quando desentorpecer
do anestésico futeboleiro, verá que os seus direitos como trabalhador já
estarão diminuídos, que o acesso ao apoio social está mais condicionado e
marcado a ferrete como um oportunista, na óptica da linguagem de taberna do: “vai
trabalhar malandro” … seja velho, viúva ou deficiente...
Hoje, a política não é feita a
pensar nos 99% que labutam diariamente para ganharem a bucha do dia e “sobreviver.
Mas para o 1% que comem na gamela do Estado, tem benefícios fiscais, não
investe os lucros e os distribui pelos accionistas…, partilha no financiamento
aos partidos, e a populaça continua a digladiar-se na defesa ou no ataque se
Ronaldo deve ou não ser titular da selecção…
Com papas e bolos se enganam os
tolos, assim diz o adágio; mas transportando a arte circense do malabarismo
para a arte da política, o povo é levado no engodo.
