“A verdade da mentira”

 A desinformação política enfraquece a confiança pública, condiciona a perceção dos cidadãos e transforma o debate democrático numa área marcada pela suspeita, pela manipulação e pela disputa pelo controlo da verdade.


Jugamos sempre que a mentira parece ser apenas o contrário da verdade, pensando que quando uma existe a outra tende a desaparecer. Também diz o adágio que “a mentira tem perna curta”. Contudo, se nos atermos a observar com atenção mais cuidada a conduta da vida humana, concluímos que a analogia entre ambas é muito mais complexa do que julgávamos.

Por exemplo, Oscar Wilde escreveu, na sua peça “A Importância de Ser Sincero”, que “a verdade jamais é pura e raramente é simples”, pois a verdade humana é rara aparecer com limpidez e sem ambiguidade. A mentira, como fenómeno moral, social e psicológico, diz muito sobre quem a diz e sobre quem a escuta, atendendo que não estamos perante apenas uma frase falsa ou uma fuga momentânea à realidade. A mentira nasce do medo de algo, de uma consequência, da perda de poder, para proteger a imagem, para escapar a uma culpa ou adiar um confronto. Mark Twain afirmou: “Se você diz a verdade, não precisa lembrar-se de nada.” Esta afirmação é lapidar, pois a verdade não requer memória, sustenta-se por si própria; enquanto a mentira exige um constante recurso à memória, ao cálculo, e uma continuidade exigente. A mentira denuncia fragilidade, pois mente-se quando se receia perder o estatuto, a confiança ou, até, o afecto.

É insofismável que as mentiras não têm todas a mesma natureza, há as mentiras calculadas, que são usadas para manipular e obter vantagem, o que se pode considerar como um instrumento do poder. Nietzsche observou que “as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”, o que nos pode ajudar a perceber como uma mentira que se disfarça de “certeza absoluta” pode ser demolidora para uma sociedade, o tal “mentiroso compulsivo”. A utilização da mentira como meio, principalmente na política, visa procurar controlar a perceção dos outros, metamorfoseando a confiança alheia num espaço benéfico ao seu próprio interesse.

 

Com facilidade podemos identificar que a “mentira” se transformou na vida real da sociedade, transportada pelo algoritmo das redes sociais e utilizada por políticos para manipular as “Massas” com vista a obter para si a atenção e, muitas vezes, o apoio na tomada de decisão.

O expoente máximo da utilização da arte da mentira para maneio e proveito próprio, expressa-se no comportamento errático de Donald Trump. Trump não tem pejo em utilizar a patranha para seu proveito, pois sem pudor diz de manhã uma coisa, ao meio-dia afirma outra, à noite diz tudo e o seu contrário sobre o mesmo assunto. Esta arte manipulatória tem como fito apontar sobre si os holofotes, criar expectativas sobre o seu eleitorado e, ao mesmo tempo, manipular os seus aliados e as instituições.

Cá pelo nosso burgo, temos dois especialista na arte do embuste, Montenegro e Ventura. Montenegro utiliza o ardil apenas e só para a sua sobrevivência política. Ventura usa como ninguém a arte da patranha para chamar a atenção sobre si e não tem qualquer pudor, à laia de Trump, mas menos sofisticado, apesar de Trump ser um bronco, para se manter à tona e explorar a imbecilidade daqueles que cegamente o seguem.

Por sua vez, Montenegro, claramente para disfarçar a sua incompetência para governar o bem-comum, utiliza o embuste para sobreviver politicamente no poder. Chegou ao poder graças a uma pantominice gerada pelo parágrafo da Gago e por Marcelo; quando confrontado com a Spinumviva, no Parlamento afirmou que aquela empresa apenas servia para gerir a herança da família, como uns terrenos e umas casas em Trás-Os-Montes. Depois foi o que se viu…

Por sua vez, as ministras do Trabalho e da Saúde são especialistas na arte do embuste. A primeira, para justificar o ataque aos trabalhadores, aldrabou a questão da amamentação, para além de muitas outras ao longo dos últimos dois anos, sendo a última mentira a dos 159 milhões de fraude nos apoios sociais; por sua vez, a segunda não há dia que não regurgite uma aldrabice, desde as questões aquando da greve do INEM, até à última a culpar os imigrantes por haver cada vez mais utentes sem Médico de Família. Quero ficar por aqui no desfiar do rol de patranhas do governo, como as ligadas às catástrofes na zona Centro do País…

Aristóteles terá advertido que “o castigo do mentiroso é que não acreditamos quando ele fala a verdade”, lembrando que mesmo a mentira bem-intencionada pode corroer a confiança. Sabemos que uma verdade dita sem sensibilidade pode ferir o outro; mas uma mentira, mesmo que venial, será mais maléfica, pois tira a oportunidade ao outro de conhecer a realidade.  

A verdade da mentira está precisamente nesse ponto: a mentira nunca é apenas aquilo que afirma. Ela é também aquilo que tenta esconder.

A mentira não passa de uma máscara que os incapazes, sem vergonha e sem princípios usam em proveito próprio. Tal como a dimensão da mentira colectiva, cuja narração é construída ao sabor da conveniência dos acontecimentos, elocuções que purgam o que mostrar e o que silenciar. José Saramago escreveu que vivemos “no tempo da mentira universal”, o que aponta para a banalização da falsidade no espaço público, que habita na publicidade, na política, nas redes sociais e nas conversas do dia-a-dia. Toda esta saturação de informação faz com que, muitas vezes, a trapaça nem sempre parece uma negação da verdade.

Procurar a verdade exige honestidade individual, mas mais que isso impõe espírito crítico e coragem. Hannah Arendt diz-nos que a liberdade de opinião só tem sentido quando a informação factual é garantida e os factos não são destruídos pela manipulação.

Também Mark Twain dizia: “Quando em dúvida, diga a verdade.” Por isso, podemos concluir que é sempre preferível, mas sem ignorar a complexidade da vida, o que significa reconhecer que a confiança, a liberdade e a dignidade dependem dela. 

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